Você sabe, agora, qual é o seu ciclo financeiro?
Duas marcas que todo mundo conhece acabam de mostrar o que dívida cara faz com o caixa.
10 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Nas últimas semanas, duas marcas que praticamente todo brasileiro já visitou, Tok&Stok e Mobly, entraram em recuperação judicial. A notícia rodou rápido, com comentários sobre o fim de uma era do varejo de móveis. Como CFO, prefiro olhar para o que ficou de fora da manchete: o mecanismo financeiro que levou até ali, porque esse mecanismo se repete, em escala menor, em empresas que nunca vão virar notícia.
Nenhuma das duas quebrou por falta de cliente. Quebraram porque o caixa passou anos dependendo de crédito para sustentar uma operação que, sozinha, já não se pagava. Juro alto, renovação de dívida cara, margem cada vez mais apertada. É uma sequência conhecida, e o problema raramente aparece de uma vez. Ele se acumula, mês a mês, enquanto o resultado do balanço ainda parece aceitável.
Mais do que os números dessas duas empresas, o dado que chama atenção vem da Serasa Experian: mais de 9 milhões de CNPJs negativados no país, dívida total batendo recorde histórico, média de 7,3 dívidas em aberto por empresa inadimplente. Não se trata de uma exceção. Trata-se do cenário. E cenário de juro estrutural alto (a Selic segue em 14,25% ao ano, com o mercado apostando que a taxa se mantém estável, sem queda relevante nos próximos meses) pune primeiro quem não sabe exatamente quanto custa carregar cada real de dívida.
A pergunta que faço para quem administra uma empresa hoje sai do genérico. Ela é mais específica: você sabe, agora, qual é o seu ciclo financeiro? Sabe quanto tempo o dinheiro leva para sair do caixa até voltar como receita? Sabe qual produto ou serviço realmente dá margem e qual só ocupa espaço na prateleira? Se a resposta for não, o risco já existe, só ainda não apareceu no extrato.
Planilha bonita para mostrar em reunião não substitui gestão de caixa. A gestão de caixa é o instrumento que avisa o problema seis meses antes de ele virar recuperação judicial. Empresas grandes com estrutura financeira robusta erraram nisso, publicamente. Empresas menores erram na mesma direção, com menos visibilidade e, na maioria das vezes, sem ninguém olhando os números com a frieza necessária.
Se tem uma lição prática nessa semana de notícias, é essa: dívida cara sem controle de ciclo financeiro adia apenas a hora em que o problema aparece. A diferença entre virar manchete e apenas corrigir a rota antes está, quase sempre, em ter alguém olhando o caixa com atenção técnica, cedo o suficiente para agir.
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